Huizinga atuou como historiador na Holanda e é autor de uma obra elementar para todos aqueles que desejam estudar o universo dos jogos: trata-se do livro "Homo Ludens" que discute a possibilidade de que o "jogar" é um elemento importante de formação da cultura humana.

Deixo claro que neste breve texto não tenho a intenção de resumir sequer a linha de raciocínio principal do livro “Homo Ludens” de Huizinga, mas gostaria de fazer alguns apontamentos teóricos que sempre acompanharam meu trabalho de desenvolvimento de jogos (independente de plataforma), interfaces lúdicas e workshops de criação de games.

Em “Homo Ludens” há algumas noções essenciais para entendermos o conceito de jogo e as diferentes conexões que o ato de jogar gera na cultura humana ao longo de sua história. O autor propõe, nas páginas iniciais de seu livro, que a ideia de jogo pressupõe algumas características essenciais como, por exemplo:

  • O jogo deve ser uma atividade livre e nunca imposta (p.3). Ou seja, o jogo presume uma participação voluntária daqueles que estão imersos no ato de jogar. O “aceitar fazer parte do jogo” é crucial para uma boa experiência lúdica.

  • O jogo não deve ser vida “real” e deve ter como premissa ser um intervalo em nossa vida cotidiana (p.11). No ambiente do jogo, as leis e costumes da vida cotidiana perdem validade, pois no universo lúdico somos diferentes e fazemos coisas diferentes (p.15). O ambiente do jogo é formado de fantasia, de sonhos e catarse; no universo do jogo – quando assumimos o papel de jogadores (players) – nos transformamos em caçadores de dragões, soldados, esportistas e tudo mais que nossa imaginação voluntária e o ambiente ao nosso redor permitir.

  • O jogo deve possuir limites de tempo e de espaço e possuir, acima de tudo, um caminho e sentido próprios (p.12). Afinal de contas, por mais caótico que seja, o jogo deve criar ordem através de regras mesmo que de maneira temporária e limitada (p.13). Essa ideia nos apresenta a importância de definir regras e o “espaço” em que a ação do jogo acontece, seja porque estamos falando de um campo de futebol, uma tela de video game ou um tabuleiro de xadrez.

  • Um jogo, por excelência, cria tensão, incerteza e acaso. Estes elementos chegam ao extremo em jogos esportivos e jogos de azar. Todo jogo, conforme supracitado no tópico anterior, possui regras e são elas que determinam o que “vale” dentro do mundo temporário circunscrito pelo jogo (p.14).

  • A função do jogo, nas formas mais elevadas que aqui nos interessam, pode de maneira geral ser definida pelos dois aspectos fundamentais que nele encontramos: uma luta por alguma coisa ou a representação de alguma coisa (p.16). Nesse ponto vemos claramente a noção de que o jogo possui significado e gera experiências para aqueles que estão imersos em sua realidade. Em um jogo de video game, por exemplo, o jogador se transforma no soldado futurista lutando em um mundo pós apocalíptico com missões e deveres a serem cumpridos; nesse caso há uma função significante forte e que transforma a experiência de jogar em algo imersivo e relevante ao player.

Partindo destas características elementares, Huizinga (p.65) apresenta o conceito de “círculo mágico”, onde mostra que quando se participa de algum tipo de atividade de entretenimento entra-se nesse círculo deixando para trás os problemas, preocupações e aflições do cotidiano, mergulhando em um outro universo. “O caráter especial e excepcional de um jogo é ilustrado de maneira flagrante pelo ar de mistério em que freqüentemente se envolve. (...) Dentro do círculo mágico, as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. (p. 15-16). Apesar de ser um espaço diferente do cotidiano, as ações realizadas dentro do círculo mágico representam/significam algo para aqueles que participaram desta experiência.

Para entendermos visualmente a noção de círculo mágico proposta por Huizinga, podemos recorrer ao autor Ernest Adams (2009, p.8). A leitura de Adams sobre o círculo mágico de Huizinga traduz que eventos do “mundo real” possuem significados especiais dentro do círculo mágico.

Partindo desses pressupostos iniciais podemos antever que a ideia de “jogo” pode estar presente em diferentes facetas da cultura humana, por isso Huizinga aponta que muito mais que o Homo Sapiens, o ser humano é – também – o Homo Ludens.

E apesar de ter sido escrito em 1938, “Homo Ludens” ainda é um livro extremamente atual e que serve de aporte teórico para estudarmos o campo lúdico na atualidade. Mais do que recomendada é, realmente, uma leitura obrigatória nessa área.

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